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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - II Capítulo


Da garupa da bicicleta Adriano olhava para a imensidão do céu-noturno, onde estrelas se materializavam sobre um manto azul profundo, cada uma brilhando num ritmo próprio. Devia ser mais de 18h00. Gastaram quase meia-hora só para chegar ao parque municipal. A ideia de ver um ET não parecia tão atraente. Pensava arrependido na mãe e em como ela devia estar e sentindo. Naquele momento, muito provavelmente, devia estar aos prantos na frente de um escrivão registrando um B.O. Como faria para explicar?
Os pensamentos pavorosos se dissipam como fumaça quando Bernardo freia a Bicicleta, parando a um metro da cancela do parque. Adriano fica sem entender muito bem a atitude do amigo, já que podiam entrar pelo portão de pedestres, ao lado. Logo, porém, o motivo torna-se óbvio.
- Está fechado. – Informou-lhes uma voz autoritária. De dentro da guarita um homenzarrão emerge, grande como os gigantes de histórias fantásticas. Do lado direito da cintura portava um cassetete que era praticamente do tamanho do skate de Rafael. Do lado esquerdo, uma lanterna e um rádio comunicador.
- Mas tem gente entrando. – Protestou Bernardo, apontando para um grupo misto de moças e rapazes.
- Está fechado para vocês. – Frisou o segurança.
- Por quê? – Perguntou Rafael, olhando feio o homenzarrão.
- Menores de idade desacompanhados de adulto, não entram depois das seis.  
Bernardo fez cara de inconformado. Adriano suspeitava que isso acabaria acontecendo. Conhecia de conversas que ouviu a reputação que o parque municipal tinha, principalmente ao cair da noite. Um lugar bonito de se frequentar a luz do dia, virava território de ninguém ao escurecer, e mesmo a segurança sendo presente, eram comuns casos de assalto e tráfico de drogas. Nenhum adulto sensato permitiria o acesso de crianças como eles. Pena não ter-se lembrado disso quando encontrou os amigos na rua de casa.
- Vamos ficar na trilha. – Bernardo tentou argumentar, sem resultado.
- Voltem pela manhã ou daqui nove anos. – Sentenciou o segurança, cruzando os braços, parado imóvel como um monólito, esperando o trio partir.
Com certa relutância, o grupo acata a decisão. O segurança ainda acompanhou-os com os olhos, voltando para a guarita só depois dos meninos dobrarem a esquina.
- Ta legal. – Disse Bernardo decidido. – Vamos fazer do modo difícil.
Rafael e Adriano estranharam. Não atravessaram o farol sentido o bairro, que era o correto. Continuaram seguindo pela calçada do parque, cada vez mais afastando-se da zona movimentando.
- Ei, esse não é o caminho certo. – Disse Adriano, já suspeitando das intenções do amigo. – Mesmo que tentemos por outro portão, não nos deixarão entrar.
Bernardo parou de pedalar. Pararam justamente num lugar sem iluminação – nenhuma que pudesse fornecer conforto ou sensação de segurança. A noite estava clara, com o céu pontilhado de estrelas. Mesmo assim, ao nível do chão, conseguiam distinguir pouco mais que contornos borrados.
- Vamos entrar. – Disse Bernardo, encostando a bicicleta no muro. Boa parte dos 994 mil metros quadrados do parque municipal era cercada por muro, e não era segredo que muitos trechos estavam esburacados.
- Quer que entremos ai? - Rafael apoiou a mão na abertura em V invertido do muro, espiando o interior, forçando o máximo a vista. – Mal da pra ver o que tem lá dentro.
- Vocês querem ou não querem ver o ET?
Adriano explodiu.
- Que garantia a gente tem de que vamos encontrar o ET? O parque é enorme, ele pode estar em qualquer parte... Se é que ele existe.
- Ele existe. – Reiterou Bernardo, não gostando do tom do amigo. – Vamos acha-lo e quando o virmos você vai me pedir desculpas.
- Desculpas pelo quê? – Perguntou Adriano, avançando contra Bernardo. – Por nos colocar nessa encrenca?
- Ninguém te forçou a vir. – Brigou Bernardo, encarando Adriano nos olhos.
- Vim porque achei que seria legal. Agora minha mãe nunca mais vai me deixar por os pés fora de casa.
- Ele ta certo. – Apoiou Rafael. – Meus pais me deixam andar na rua de casa, mas me proibiram de vir ao parque à noite. Eles devem estar uma fera.  
Depois desse tenso dialogo, faz-se silêncio. O peso da culpa duma decisão irresponsável tirou toda a empolgação que tinham de continuar. Calados, cada um faz uma autoanalise. Adriano sentia verdadeiro remorso por trair a confiança da mãe. Rafael imaginava quanto apanharia de cinta – e se resistiria à vontade de chorar. No fundo Bernardo entendia o ponto de vista dos amigos. Nunca foi sua intenção arranjar problema para eles ou para si próprio. Queria dividir a emoção de encontrar em ET de verdade, por mais absurdo soasse aos ouvidos de quem escutasse. Adriano e Rafael puderam perceber e também compreender isso.
- De repente ele pode estar aqui perto. Vamos espiar – Sugeriu Adriano, tomando a direção do buraco.
A entrada no muro não era alta a ponto de permitir a passagem de uma pessoa ereta – mesmo sendo uma criança – todavia, era suficiente para quem não se importasse de engatinhar e sujar a palma das mãos e o joelho das calças.
Adriano entrou primeiro, seguido de Rafael e, por último, de Bernardo.
- Vai deixar a bicicleta lá fora?
- A noite dificilmente passa gente por esse trecho da calçada. – Disse Bernardo com um sorriso. – Depois vamos só dar uma espiada e vamos embora.

Pode ser difícil, aos olhos de muitos, tentar entender essa súbita mudança. Diferente dos adultos que cortam contato com conhecidos pelas coisas mais bobas, o trio não guarda magoas por muito tempo. Talvez seja o verdadeiro significado da amizade. A procura pelo ET, no entanto, prometia tudo menos ser uma tarefa fácil.


Continua na próxima semana...

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