link href ='http://fonts.googleapis.com/css?family= THE MILLION MILE MAN' real='stylesheet' type='text/ css'/ Turma do Fundo-do-Mar: Janeiro 2015 oeydown='return checartecla(event)' >

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VII Capítulo



Firmina das Graças podia ser considerada a típica mulher brasileira. No atual curso de seus 45 anos, desempenhava múltiplas funções: Provedora, dona de casa, mãe. Como provedora, trabalhava de diarista. Era exímia no que fazia: Passadeira, lavadeira, cozinheira. Dividia seis dias da semana em duas casas, tirando uma renda mensal de pouco mais de 1000 reais. Como dona de casa gostava de manter tudo arrumado e limpo. Não chegava ser perfeccionista, mas se alguém, mesmo visita, tentasse entrar sem antes limpar a solas do sapato, ela gentilmente indicava o capacho. Como mãe, Firmina fazia questão de ser presente na vida do único filho. Não raras vezes tinha conversas preventivas com Adriano sobre o perigo das drogas e sexo, o que às vezes soava exagero, pois o menino mal tinha acabado de adentrar a pré-adolescência.
No geral, a relação entre os dois não tinha nada que pudesse causar indignação. Firmina orgulhava-se do filho. Não o mimava, sabia dar carinho na medida certa, sem esquecer-se de repreender quando necessário. Criava regras e esperava que fossem cumpridas. E o descumprimento rendia castigos diferentes. brigas por banalidade ela não perdoava. Certa vez, Adriano ficou uma semana sem jogar videogame por conta de uma briga na escola (briga essa, a mãe soube, começou por conta de uma caneta). Noutra ocasião, castigou o filho com um mês sem ver televisão por atirar pedras na janela da vizinha (a mesma que tentou envenenar Sabão). Apesar do menino se defender alegando ter sido um ato “justo”, a mãe desaprovou. “Não se revida uma agressão com outra maior”.
Do que Adriano não podia fazer, em casa, uma ganhava status de mandamento: não levar ninguém em casa, na ausência da mãe. Principalmente meninas. Com a mídia noticiando casos e mais casos de adolescentes tendo filhos, a última coisa que Firmina queria era ser avó antes do tempo. Adriano não era popular com nenhuma menina, fosse do bairro ou da escola, tão pouco conversava com elas. 
Em pouco mais de onze anos e meio de convivência, Adriano aprendeu a identificar quando sua mãe falava sério, e, naquele instante, sentia-se num barquinho a deriva no mar tempestuoso.



 -------------------------------------------------------------------------------



“- Quem é essa menina?”, “- Porque ela tá vestida assim?!”, “- Que cor é essa?!”, “- Que sujeira é essa na sua roupa?”, “- Porque seu cabelo tá molhado?!” “- Onde você tava?”
Uma metralhadora giratória não seria capaz de acompanhar o ritmo com que Firmina disparava suas perguntas. Não gritava, mas falava com voz de quem exigia absoluta atenção.
- Mãe, essa – Adriano parou, fitando a expressão severa da mãe. Como explicaria aquilo?
A menina continuava explorando os objetos da sala, como se a discussão não a envolvesse.
- Quem é essa menina?
- Ela – Adriano forçava cada neurônio pensando no que dizer. Infelizmente, nada lhe ocorria.
- Você foi à padaria depois que saiu daqui?
- Fui – Apressou-se a dizer. – o pão tá lá no cesto.
A mãe foi à cozinha, confirmar, voltando em instantes.
- E ela - Perguntou, indicando a menina que examinava a superfície da tela da tevê de 30 polegadas.
- Encontrei com ela no caminho de volta. - Contou. Não mentiu totalmente, ainda que omitisse a ida ao parque municipal.
A próxima pergunta, porém, tornou a desarmá-lo.
- Qual o nome dela?
Adriano hesitou.
- Qual o nome dela? – Tornou a perguntar. – Trouxe alguém pra dentro de casa que nem conhece?
- Não mãe.
- Então, qual o nome dela?
Pressionado, Adriano falou o primeiro nome que veio na cabeça. – Lúcia.
A mãe apertou os olhos, desconfiada. Firmina conhecia todas as meninas do bairro, e nenhuma se chamava Lúcia. Adriano pode ter dado um tiro no próprio pé. 
- Porque ela está assim?
- Assim como?
Firmina projetou um olhar tão ameaçador que o sorriso frouxo do filho desapareceu em segundos.
- Não banque o bobo comigo. – E olhou bem dentro dos olhos do filho. – Porque ela está vestida assim? E essa cor?
Adriano sentiu que navegava por cima da crista duma onda colossal. No fundo queria dizer toda a verdade. Que o nome dela não era Lúcia, que ela era um Alien, um ET que encontrou em sua ida até o parque municipal, que ela o salvou de ser devorado por uma espécie reptiliana de ET. 
- Não me diga que ela faz aquela coisa de japonês lá.
- Coisa? – Adriano não entendeu.
- Você sabe do que estou falando.
O menino ficou confuso.
- Não, juro que não sei. – Disse sincero.
- Aquela coisa – Firmina busca lembrar. – que imita aqueles desenhos japoneses que você assiste. Coplai.
- Cosplay?
- É é, isso.
Foi como se a onda quebrasse, arremessando o barco para um lugar seguro. Podia ser a desculpa perfeita, pensou Adriano enquanto via “Lúcia” pressionando os botões do controle-remoto. Olhando-a com calma, realmente “Lucia” dava a impressão de estar pronta para participar de uma convenção cosplay. Não fugia a possibilidade, a cidade já tinha realizado duas convenções do gênero.
- Alias que tanto essa menina xereta as coisas? – Firmina avançou e tomou o controle-remoto das mãos de “Lúcia”. – Cuidado, isso é frágil.
Lúcia encolheu os ombros, os olhinhos platinados brilhavam assustados, porém Firmina não liga isso à forma com que se dirigiu a ela.
- Que é que você tem? – Firmina olhava tão perto do rosto de “Lúcia”, que seus narizes quase se tocaram. – Ela não fala? – E voltou-se para o filho.
Depende do que a mãe considerava “falar”. Vinda de anos-luz do planeta Terra, as chances de “Lúcia” falar português brasileiro, ou outro idioma, eram tantas quanto Firmina acreditar em vida alienígena. Olhando as vestes do filho com a compenetração de uma águia, a mãe sentiu estar na pista de algo.
- Que houve para você estar desse jeito?
Adriano soluçou. Sua mãe não era ingênua a ponto de que aceitaria a velha história “eu tropecei”. Além disso, ela também olhava seu rosto, exatamente para os carocinhos feitos pelas mordidas de mosquito. E embora Lúcia tivesse apagado o corte de seu braço, havia cortes menores espalhados pelo rosto e braços. 
- Você estava fugindo de quem?
Adriano tornou a soluçar. Sempre que estava nervoso soluçava.
A mãe parecia estar na pista de uma grande descoberta.
- Esperem-me aqui, vocês dois. – E saiu.
Depois daquele interrogatório, Adriano caiu de bunda no chão. Nem bem fizera isso, a mãe estava de volta. Não parecia diferente, exceto pelo calçado. Tirou a sandália de dedo e pôs um sapato formal.
- Vamos indo.
Adriano estranhou. - Pra onde? 
- Vamos à delegacia. – Decretou a mãe.
O barco conseguiu escapar da onda para cair na borda dum redemoinho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - VI Capítulo



A primeira coisa em que Adriano pensou foi fugir. Mas esbarrou na questão “fugir para onde?”. Já estava em casa, o lugar mais seguro que conhecia. Pensou, então, ligar para a polícia. Isso gerou outro problema: o que diria? “tem uma criatura estranha em meu quarto?” O policial o mandaria a merda e ainda lhe daria esporro por usar o número de emergência para brincadeiras. Podia contatar a mãe, mas desistiu ao lembrar, amargurado, que havia deixado o celular sobre a cômoda no quarto.
Ficando sem opções, o menino pensa em ele próprio tirar aquela coisa de seu quarto. Aos sons de latidos animados de Sabão, armou-se de toda coragem e entrou no quarto, os punhos fechados e uma expressão de absoluto pavor. Quando a criatura estendeu-lhe a mão, Adriano deu um pulo para trás e desembestou porta afora, indo refugiar-se no banheiro.
Tremendo no escuro, dentro do Box, a atenção de Adriano está toda voltada para a fenda do pé da porta, onde viu uma luz brilhante azulada passar. A criatura havia deixado seu quarto.
Simplesmente não conseguia pensar numa solução. Estava sozinho, morrendo de medo, bem debaixo duma goteira do chuveiro. Ouvia os latidos alegres de Sabão, imaginando que por ser filhote ele ainda não era capaz de associar o desconhecido ao perigo. “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?”, se repetiam ininterruptamente, sem dar conforto ou solução. Era uma tortura não saber o que fazer e continuar com aquelas perguntas. “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?”...
Estranhamente, Adriano começa a enxergar a imagem de sua mãe. De ar zangado, a mesma mexia os lábios, falando algo, porém não saia som. Ao redor dela as frases “Que essa coisa quer aqui?”, “Porque comigo?”, “Que devo fazer?” multiplicavam-se desordenadamente, avolumando-se e embaralhando-se.
Adriano lutava para manter-se atento a imagem autoritária da mãe, ainda falando sem produzir som. O mar de questões cada vez mais crescia e avançava. Quando enxergou sua mãe brandindo um rolo de macarrão, o menino perfurou através das marés de letras e sílabas, até visualizar a expressão nervosa de sua mãe.



“Você não tem problema, você os cria”


Imediatamente todas as dúvidas se dissiparam, deixando Adriano sozinho. Sua mãe tinha o hábito de dizer que os problemas são fruto do próprio receio em tomar decisões. Não mais refém disso, Adriano, com a cabeça ensopada, levantou-se e destrancou a porta. O corredor está vazio. Pelo som dos latidos alegres de Sabão, concluiu que estavam na cozinha.
Não havia luz exceto a estranha luminosidade que era emitida pela criatura. Adriano parou na entrada da cozinha e apertou o interruptor. Uma luz amarela mostarda clareia o ambiente.
O cachorrinho Sabão abanava freneticamente o rabo. Não olhava Adriano e sim uma menina parada em pé entre a pia e a geladeira. Não era um fantasma, apesar da superfície do corpo da garota desprender pequenas emissões de luz azul-esbranquiçada. Vestia uma roupa que parecia algo saído de um filme de ficção científica sobre o espaço; usava uma espécie de macacão prateado, com botas e ombreiras pretas. Mas o que despertou a atenção de Adriano foi o tom de pele do rosto e mãos; não era branca, como de seus amigos, nem morena como a sua. Era azul escuro, igual o mar. Os lábios, sobrancelhas, cabelo e olhos, era branco platinado.
Do cãozinho Sabão, a menina olhou para Adriano e sorriu.
- Eeeh, hmm – Murmurou, pensando no que dizer. – O-Oi. – Gaguejou. – De onde você é? – Esperou uma resposta, mas a menina nada diz. – Claro. – Disse dando um tapinha na própria testa. – Se você veio de outro planeta não deve saber falar minha língua. – Concluiu, tentando controlar o nervosismo. Não sentia que corria perigo, mas aquela situação o deixava desconfortável. 
Não tardou para Adriano perceber que a menina estava mais interessada com relação aos objetos da cozinha. Pegou com as duas mãos um dos pãezinhos que Adriano trouxera, e o examinou. Encostou o nariz para sentir o cheiro, apalpou-o algumas vezes. Tornou a olhar Adriano e lhe estendeu o pão.
- A-Ah, obrigado, tô sem fome. – Adriano arriscou-se a se aproximar. – O nome disso é “pãozinho”. – Disse apontando para o que a menina tinha nas mãos. – Serve pra comer.
A menina olhou para o objeto que segurava, tornando a oferecê-lo a Adriano. – Obrigado. – Agradeceu Adriano, aceitando o “presente”. Achou que melhor não contrariá-la. Pegando o pãozinho, Adriano o parte em duas metades dando uma delas ao agitado Sabão. – Viu, é de comer.

A menina acompanha com os olhos o cãozinho ir comer o pedaço de pão debaixo da mesa, o rabo abanando feito um espanador. Pareceu compreender a associação do pão como comida porque pegou outro, dividiu-o em duas metades e ofereceu uma delas a Adriano, que sem-jeito aceita.
- Que foi? – Adriano olhou a menina cujos olhos ficaram arregalados de susto. Ela olhava direto para o machucado em seu braço, resultado de quando tentou fugir dos ETs reptilianos. – Não é grave. – Tranquilizou. – Só vou ter de passar merthiolate e
Adriano não concluiu a frase. A menina agarrou seu braço, expondo o corte. Mesmo o menino dizendo que não era nada, não escondeu a surpresa de ver o tamanho do corte. Mais ou menos da metade do comprimento duma régua.

Com os indicador e médio da mão direita, a menina passa os dedos sobre a ferida. Adriano teve a sensação que um zíper ia se fechando sobre o machucado. Em segundos, o corte deixa de existir.
- Uau. – Exclamou maravilhado. – Que poder daora!!
A menina seguiu explorando tudo que via. Pegou o copo que Adriano havia deixado sobre a pia, e este se quebrou em suas mãos. Aproximou-se duma tomada próxima dum micro-ondas. Ia enfiar o dedo quando Adriano a puxou pelo outro braço. Precisava tirá-la da cozinha, assim como Sabão, para que não se machucassem com os cacos de vidro do copo.
Sabão foi fácil convencer. Só precisou dar outro pedaço de pãozinho e lá se foi o cachorrinho para o quarto do menino. Já fora da cozinha, Adriano leva a menina até a sala. Ali não havia objetos quebráveis, pelo menos não que pudesse machucá-la. Enquanto ela fica encantada, examinando a cortina, Adriano corre para colher os cacos de vidro. 
Limpando tudo voltou correndo pra sala, onde a menina continuava examinando minuciosamente o tecido da cortina, admirando o desenho de flores margarida. Pensando no que dizer, ouviu o som inconfundível de molho de chaves e portas se abrindo: sua mãe chegara.
- Absurdo, que absurdo. - Resmungava ela, passando frente a sala e detendo-se quando viu Adriano, seu filho, em companhia da estranha menina. Ela não gritou, mas algo em sua fisionomia dizia a Adriano para preparar-se para enfrentar um tsunami.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - V Capítulo



Ignorando o comando instintivo que dizia “corra” ao corpo, Adriano fica imóvel. Aos pouquinhos foi-se se erguendo, até ficar ereto, o tempo todo olhando a criatura nos olhos, sem piscar uma vez sequer. Não eram olhos que podiam ser considerados atraentes, longe disso. Redondos e miúdos passavam uma impressão desconfortante de se estar olhando e sendo observado por algo de natureza ardilosa e ruim. E mesmo seu intimo o alertando do perigo que corria, Adriano não conseguia deixar de olhar, como admiração, aqueles olhos.
Na sua visão, a criatura de aspecto reptiliano parecia algo sagrado, impossível de explicar em palavras, contornado de uma luz resplendorosa, a própria personificação da glória. Tal luz crescia em pujança, clareando a vegetação próxima. O corpo da criatura é reduzido a um contorno escuro, caindo aos pedaços aos pés de Adriano. O menino demorou a perceber o que realmente tinha acontecido. Como quem acabara de acordar de um sonho, olhou assustado o chão a sua frente, vendo os restos mortais da criatura. Ergueu os olhou e viu o que só pode imaginar ser um fantasma.
Num baque, todo raciocínio antes suprimido, voltou com força total. Adriano pôs-se a correr com tamanha energia, que seria um desafiante a altura de Usain Bolt para o título de novo campeão na corrida dos cem metros rasos. Cortando o mato como uma flecha, só parou ao quase esborrachar a cara no muro. Estava na direção certa, pois viu um pedaço da perna que identificou como sendo de Bernardo, passando pelo buraco. Seguiu-o.
- E Rafael?!
- Já se mandou!! – Disse Bernardo, machucando a perna ao escorregar o pé no pedal.

O peso extra de Adriano pareceu não fazer diferença, Bernardo pedalava como se estivesse sozinho. No caminho de volta os dois não se falam. Obviamente assustados com o que viram, só desejavam voltar para casa e enfiar-se debaixo das cobertas.


--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Adriano pediu a Bernardo que parassem na esquina de casa – não queria que o amigo visse a bronca que levaria de sua mãe caso ela estivesse esperando no portão de casa. Exatamente que horas eram não sabiam. Devia ser tarde porque não havia mais sacos de lixo enfrente as calçadas das casas. O lixeiro já tinha passado.
- Até amanhã.
- Até qualquer dia. – Corrigiu Adriano, ciente do preço que pagaria pela longa ausência seria um cárcere indeterminado. – Tenta descobrir se Rafael chegou em casa.
Bernardo ainda acenou com a cabeça, desejando boa sorte, tomando o caminho oposto ao qual viera. Agora era Adriano, sua mãe e uma noite tentando explicar o inexplicável.


Ao se aproximar do portão, viu um bilhete grudado.






Adriano conhecia a amiga de sua mãe, a “vizinha” Maria do Carmo, que não era tão “vizinha” assim, dada a casa desta ficar no finalzinho da rua. Era comum ambas se visitarem, principalmente sua mãe, que tinha disposição para ir a casa de Maria do Carmo levar roupinhas ou qualquer coisa para as duas menininhas da amiga.  

De repente, um estranho ânimo avivou-se em seu rosto. Se sua mãe deixou aquele bilhete, então ela deve ter saído algum tempo depois dele próprio ao ir a padaria comprar o pão. Significa que não precisaria explicar sua ida ao parque municipal, pelo menos por enquanto. Era bom porque ele não tinha ideia de como iria explicar aquela história.
Entrou na cozinha, tirou os pães de dentro do saco estropiado e os colocou no cesto. Pegou um copo, encostou-se a pia junto ao bebedouro. Sentiu-se saciado com o decimo copo d’água.

Cansado, decidiu ir para o quarto. Foi nesse trajeto que deu-se por falta de algo; Sabão ainda não apareceu. O cachorro não ficava do lado de fora desde quando a vizinha tentou envenená-lo. Após uma “calorosa” discussão com sua mãe, a mulher terminou que por se mudar, e Sabão passou a ficar sempre dentro de casa, saindo apenas quando ou Adriano ou sua mãe estavam em casa. Ainda filhote, com 2 anos, qualquer um que entrasse na casa, logo ele surgia para fazer festa. Se o bichinho não tinha aparecido, Adriano só conseguia imaginar duas hipóteses (uma pior que a outra). Ou ele fugiu, ou foi roubado. Se fosse o caso fazia sentindo sua mãe ter saído, mas ter-se ido encontrar com Maria do Carmo... Simplesmente não encaixava.


----------------------------------------------------------------------------------------


Imaginando o pior, correu apavorado até o quarto. A primeira coisa que viu, ao abrir a porta do quarto, foi um tufão peludo de quatro pernas. Sabão, seu cãozinho vira-latas, pulava a seus pés, alegremente. O bichinho, porém, não era a única coisa viva ali dentro. Parada próxima à janela estava à coisa que viu no parque.
O "Fantasma" o seguira.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um Menino, seu Saco de Pães e a Garota de Sírius - IV Capítulo




Por entre as frestas da madeira apodrecida, o trio espia a cena de um crime. O que acreditavam ser a vítima encontrava-se caída, já sem vida, debruçada sobre um monte de folhas. Sua identidade é especulativa; branco ou negro, homem ou mulher, velho ou criança, impossível dizer. Do tórax pra baixo não havia mais corpo. Melhor dizendo, parecia uma geleia a diluir-se. A atenção do trio muda, vagarosamente, para a criatura esguia parada próxima do cadáver.
Viam algo de aparência humanoide. De altura calcularam 1,80. O corpo era magro escamoso, similar a uma cobra, emitindo um brilho verde fosforescente. A cabeça era pequena, de formato oval, sem cabelo ou orelhas, sobrancelhas ou nariz. Os olhos eram redondos e pequeninos, como duas bolinhas de gude, e a boca larga e descarnada.
Rafael sente algo extremamente ruim debatendo-se em seu estômago. Adriano imagina se sairiam dali com vida. Em caso afirmativo, aceitaria de bom grado o castigo de sua mãe, mesmo que significasse passar o resto da vida preso dentro de casa. Em caso negativo, será que alguém acharia e reconheceria seus restos mortais? As emoções de Bernardo podem ser descritas como um misto de fascínio e pavor. Estava diante do Santo Graal da Ufologia. Sem dúvida “aquilo” abalaria os alicerces da comunidade científica, religiosos precisariam rever seus dogmas. Acima de tudo isso, duas coisas ficaram evidentes. A primeira é que ETs existiam e não eram bonzinhos.  
SSSSSSSSSS - O som sibilante vinha do lado oposto a do trio, próxima do ET. Rafael apertou com força o skate embaixo do braço, Adriano deixou escapar um inaudível “Ferrou”. Bernardo esfregou os olhos até machuca-los. Era verdadeiro o segundo ET que viu surgindo da vegetação, silencioso tal qual um gato. Seria possível uma colônia alienígena estar vivendo ali?
Se ali havia dois tipos distintos - um casal - era impossível dizer, pois um parecia o reflexo do outro, sem nada em sua anatomia que servisse para identificar macho ou fêmea.  O segundo ET aproxima-se de lado do primeiro, não o encarando. Então ele faz algo que deixa Bernardo intrigado: colocou fora sua língua bifurca, como querendo experimentar o ar. De repente, Bernardo sente que corriam perigo. Se aqueles ETs tinham morfologia ofídica, então a língua bifurca deles desempenharia a mesma função do das cobras; sentir odores.
Bernardo puxa levemente Adriano pela camisa, que entende que deviam partir. Ao cutucar Rafael, foi como se acionasse forças invisíveis que o menino lutava querer liberá-la. A coisa que se revirava no estômago do garoto galga seu caminho para a liberdade, do esôfago até a faringe, saindo pela boca na forma de vômito.
Bernardo e Adriano congelaram. Quando Adriano tomou coragem para checar se os ETs tinham-nos detectados, um deles, com incrível agilidade, já corria sentido a eles. Subindo no tronco caído, a criatura os observa com curiosa atenção. Sem reação, os meninos mantêm-se imóveis.
Surpreendentemente, Rafael é quem toma a iniciativa. usando o skate, golpeia o rosto da criatura, que se desequilibra e cai, debatendo-se feito um pássaro abatido.


-----------------------------------------------------------------------------------------


O ato de bravura é efêmero. Os meninos não ousam olhar e ver se as criaturas estão no seu encalço, correm o mais rápido que suas pernas conseguem.
Rafael e Bernardo pareciam ter incorporado avestruzes. Adriano estava particularmente mais lento. E quando o saco de pães enganchou-se num galho, ficou definitivamente para trás.
Faria sentido se largasse o saco de pães. Afinal, uma mãe sensata compreenderia que seu filho querido precisou deixar os pães do lanche para evitar de servir de comida para criaturas reptilianas alienígenas. Porém o menino não ia desistir. Ao puxar com todas as forças, o saco plástico veio junto com um galho coberto de espinhos. Nem um cantor amador no Karaokê teria dado um berro tão alto como de Adriano. O ferimento é superficial, mas este não era o problema. Um dos ETs o encontrou.